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Fotografia: os 12 pecados
escrito por Mario Amaya em 19 de novembro de 2008
O mote desta série de artigos, iniciada na MAC+ 28, é: hoje em dia, todo mundo fotografa. E a maioria das pessoas anda para todo lado com pequenas câmeras de bolso (as compactas ou “saboneteiras”), tecnicamente limitadas, porém versáteis, sempre prontas para capturar um flagrante. O resultado dessa orgia fotográfica generalizada é um oceano de fotos caseiras na internet: Blogger, orkut, Fotolog, Twitter, Facebook, Plaxo, Flickr, Picasa, MSN Live (sim, até mesmo esse), além de locais menos famosos.
Entre todas essas citadas, muitas estão mais interessadas na persistência da memória, por isso acabam imprimindo as melhores fotos em papel e montando álbuns ao estilo tradicional (aguarde mais sobre esse assunto em um artigo futuro). Tecnologia e tradição andam, nesse caso, juntas.
Porém, há uma coisa que a tecnologia ainda não conseguiu solucionar: os erros de captura comuns que muitos usuários cometem. Você preenche diligentemente seu cartão de memória de 4 GB a cada noitada, viagem e fim de semana. Mas essa atividade toda está rendendo o que deveria em imagens emocionantes? Como é que você fica sabendo se a sua técnica evoluiu?
Ao analisar milhares de fotos caseiras, você começa a detectar alguns erros recorrentes, que as pessoas eventualmente cometem e que não estão necessariamente ligados a falhas técnicas de fotometria ou foco. Esses erros podem até ser reunidos em um conjunto de problemas fundamentais da fotografia, apelidados aqui de “12 Pecados”. Leia e reflita.
Enquadramento centralizado no assunto, esquecendo a composição da cena
É a “visão de túnel”: na excitação de capturar o momento, a pessoa só enxerga a área central do campo de imagem e ignora todo o resto, enquadrando cenas bonitas de maneira desleixada. Todo mundo, inclusive eu, você e sua mãe, já fez algumas dessas fotos na qual o assunto da foto é uma pessoa, mas ela está plantada como um poste exatamente centro da foto, dividindo o quadro simetricamente em duas vastas massas visuais. Soluções: aprenda a compor de maneira descentralizada. Aprenda a fazer retratos na vertical.
Objetos estranhos interferindo com o assunto principal
Esse erro é uma extensão do primeiro. Fundos que distraem, ou sem contraste, ou com luz melhor que a do assunto da imagem, objetos que poderiam perfeitamente ser deixados fora da composição, pedaços de dedos e cabeças de pessoas de costas na frente do assunto. Quase sempre é possível caminhar um pouco e achar um novo ângulo que resulte mais limpo. Ou então, se a lente permitir, tente forçar o desfoque do fundo com uma abertura generosa.
Horizonte desnivelado
É impressionante, mas a maioria das pessoas que fotografa sem maiores ambições não tem a mais rudimentar noção de prumo. Não é por não prestarem atenção a essa questão que devam ignorá-la, pois serão os pobres olhos dos seus amigos a serem feridos por tais imagens tortas. Está clara a necessidade de a indústria fotográfica dar um passo além das perfumarias do momento, como detecção de rosto e vídeo HD, e incluir nas câmeras amadoras uma função verdadeiramente útil: autonivelamento do sensor.
Captura precipitada
A pessoa vê uma cena estática e tranqüila e clica afobadamente a partir de onde está, sem se preocupar em encontrar um ângulo que faça mais sentido. A foto resultante é um registro de que se esteve naquele lugar, mas não comunica absolutamente mais nada interessante. Em fotos tiradas de dentro de um ônibus turístico a toda velocidade, ainda dá para compreender e perdoar. Em um passeio de fotoclube a pé, não. Outra falha desse gênero, típica de newsletters corporativas, são as fotos de gente de costas, em que há um considerável número de pessoas de costas para o fotógrafo. Nessas imagens, o verdadeiro assunto não são essas pessoas, mas o local para onde elas estão olhando. Diante disso, elas poderiam ficar fora da composição.
Luz do dia ruim
Câmeras digitais, especialmente compactas, têm sérias dificuldades para registrar a gama de tons de uma cena muito contrastada, como uma externa com luz direta do sol. Se houver ao alcance um programa de edição de imagem, uma curva de contraste pode ajudar a disfarçar as altas luzes estouradas e ressuscitar o detalhe perdido nas sombras. Mas não dá para fazer milagres. O correto é escolher um horário de luz decente para bater a foto. Ou, então, carregar por aí um rebatedor e uma unidade de flash externo. Opa, será que aí continua sendo fotografia amadora?
Objetos distantes demais
Não consegue entender coisa alguma da foto? Chegue perto do assunto. Se não der, use o zoom. Hoje em dia, todas as câmeras compactas têm um belíssimo zoom. As mais baratas ampliam até 3X, as caras chegam a 18X. Há dez anos, essa potência de zoom exigia equipamentos profissionais enormes, que custavam vinte vezes mais, e hoje o recurso cabe na sua compacta. Não há mais desculpa para continuar fazendo aquelas fotos típicas das velhas point & shoots de lente fixa de 35mm, que consistiam em vastos campos salpicados de detalhezinhos minúsculos.
Pessoas com mãos, pés e cabeça cortados
Se é para ser retrato de corpo inteiro, que seja – literalmente. Se é para ser um plano parcial, isso tem de estar bem definido. Se tem braço inteiro, precisa ter mão. Ah, é que a pessoa está tão lindinha nessa foto que você torce para ninguém reparar na mancada? Refaça o corte mais fechado. Não rolou? Resigne-se, exclua a imagem do álbum e tenha mais cuidado na próxima oportunidade.
Clarão redundante de flash ou do sol
É profundamente irritante quando a luz do flash atinge uma superfície refletora no fundo e carimba um clarão totalmente gratuito na contraluz. Ou então, as pessoas retratadas são transformadas em estátuas de mármore. Cálculos de cabeça indicam que uns 80% das fotos amadoras feitas com flash ficariam muito melhores com ele desligado. Fotos tiradas com o sol quase de frente, ofuscando a lente, também entram nesta categoria.
Foto de cartão postal com ângulo manjadíssimo
Se a imagem do local turístico já existe em forma de cartão postal, vá à lojinha de souvenirs e compre-o. A seguir, utilize sua câmera para criar uma imagem personalizada e diferente do que todo mundo já viu.
Assinatura horrível num canto
Se algum maluco quiser roubar sua foto pela internet, a assinatura não o impedirá: basta cortar seu nominho fora ou encobri-lo. Além disso, o texto distrai o olho do assunto da foto. Por fim, a imensa maioria das pessoas simplesmente não tem bom gosto tipográfico. Pronto, falei. (O exemplo aqui mostrado, naturalmente, é uma simulação.) Ah, e antes que alguém esqueça, marcar a data no canto, como se fazia antigamente, além de desnecessário (toda a foto já vem com essa informação marcada internamente), pode estragar uma imagem perfeita. Evite.
Lusco-fusco e crepúsculo entulhados
Esse descuido comum se deve a uma variante da “visão de túnel”: o fotógrafo fascinado pela luz colorida do céu se esquece de compor a cena, deixando entrar um monte de objetos silhuetados na frente do assunto: postes, fios elétricos, prédios e outros lixos que atrapalham o primeiro plano. Inclua esses elementos no enquadramento de maneira coerente ou os deixe de fora.
Assunto de mau gosto
Aí não há dica que ajude.
Tem coragem de ouvir uma crítica?
Nem pense em usar Flickr, Fotolog e Picasa para obter uma avaliação de suas fotos, pois esses sites são, em essência, redes sociais e não páginas especializadas para análise de portfolio. Assim, a camaradagem e o clima de “conversa de comadres” entre os membros é a norma natural. Nunca se vê alguém apontando falhas nas imagens dos outros. Mesmo quando as pessoas pedem orientação honesta para melhorar seu trabalho, uma crítica bem-intencionada ali parece inadequada, rude, fora do lugar. Aspirantes a artistas da luz perdem suas ambições e acabam viciados no elogio fácil e nas medalhinhas imaginárias.
A solução, claro, é enviar sua foto para um site em que fotógrafos profissionais estejam à disposição para criticá-la. Esse site existe: é o FotoGlobo, blog dos fotógrafos do jornal O Globo. Eles convidam os leitores a enviar suas imagens e, quando acham falta nelas, baixam a lenha sem dó e sem receio de ofender ou humilhar. Está bem assim, porque todas as críticas deles são construtivas. Quem aspira a artista precisa, às vezes, ouvir o que não quer, senão não cresce.
Visite e participe do FotoGlobo: http://oglobo.globo.com/blogs/fotoglobo.
Mario Amaya é fotógrafo. E este é o único lugar na imprensa brasileira onde ele teve coragem de expor tantas fotos que deram absolutamente errado.
Tags: dicas, Fotografia
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